Subir uma montanha é, provavelmente, uma das formas mais exigentes e gratificantes de testar do que somos feitos. O corpo pede para parar, os pulmões imploram por ar e cada passo parece uma vitória contra a gravidade. Quando finalmente se chega ao “teto do mundo”, no caso das montanhas mais altas do planeta, todo o esforço e cada gota de suor são recompensados por uma vista que poucos têm o privilégio de alcançar.
No entanto, subir montanhas de grande altitude, como o Kilimanjaro, exige mais do que força física e preparação mental. Embora não perdoe a falta de treino, o desafio pode tornar-se mais “amigável” quando temos o equipamento certo, camadas adequadas e acessórios que garantem conforto e segurança em condições extremas.
Uma ascensão de alta montanha tem desafios de altitude, por isso é crucial saber o que levar para otimizar desempenho sem carregar peso desnecessário. Preparámos um guia para explicar de forma clara e prática tudo o que precisas de levar da cabeça aos pés.
Roupa em camadas
Uma das regras de ouro do montanhismo é o princípio das três camadas, que prepara o corpo para todas as mudanças climáticas que possam surgir. Cada uma das camadas de roupa cumpre diretamente um objetivo.
A função da primeira camada ‒ uma camisola termorreguladora e de secagem rápida, com tecidos sintéticos ou lã merino ‒ é manter a temperatura no corpo e expulsar o suor. Neste sentido, o algodão é considerado um material proibido.
No montanhismo existe inclusive um ditado comum: “Cotton is rotten”. Isto porque o algodão consegue absorver até 27 vezes o seu próprio peso em água (suor) mas, ao contrário dos tecidos sintéticos ou de lã merino, não transporta essa humidade para o exterior.
A camada intermédia, que corresponde geralmente a casacos ou camisolas polares, é responsável pelo isolamento térmico, retendo o calor corporal e isolando o corpo do frio. A camada exterior ‒ como casacos impermeáveis ou calças à prova de água ‒ deve proteger contra vento e neve.

Botas de caminhada (e meias!)
No montanhismo de altitude extrema, a proteção das extremidades é a linha de frente contra as lesões por frio, como a hipotermia. O calçado é, sem dúvida, um dos equipamentos mais importantes. Recomendam-se botas de tripla camada (impermeável, à prova de vento e respirável), projetadas para manter o calor corporal mesmo em temperaturas de -40ºC ou inferiores. As botas de caminhada devem, por isso, ser resistentes à água e ter solas com boa aderência, que sejam compatíveis com a colocação de crampons ‒ acessórios com pontas metálicas que se fixam às solas das botas que garantem segurança em terrenos escorregadios como neve e gelo.
Além das botas, muitos montanhistas utilizam um sistema de camadas também nos pés. Primeiro uma meia muito fina, geralmente de seda ou fibras sintéticas de secagem rápida, que serve para afastar o suor da pele e para prevenir bolhas, e depois uma meia grossa e densa, com alto teor de lã merino, que permite absorver até 30% do seu peso em humidade e isolar termicamente.
Luvas
Tal como o calçado, o sistema de luvas também deve ser baseado em camadas. Nas mãos, o desafio é ainda maior: é preciso proteção térmica extrema, mas também destreza para manusear cordas ou outros equipamentos. Para primeira camada devem ser luvas finas e justas, mas também luvas de montanha (tipo ski), onde os dedos ficam todos juntos, exceto o polegar.
Bastões de trekking
Para muitos montanhistas, os bastões de trekking são o equipamento mais importante depois das botas. Não são apenas “ajudas para caminhar”, são ferramentas de segurança que transformam o teu corpo numa máquina de quatro apoios. Além disso, o uso de bastões reduz o impacto nos joelhos e tornozelos em cerca de 25%, especialmente nas descidas.

Óculos de sol
Podia ser um acessório de moda, mas neste caso os óculos de sol são um equipamento de proteção ocular crítico. Em altitudes elevadas, a atmosfera é mais fina e filtra menos os raios ultravioleta. Além disso, a neve reflete até 80% da luz solar, criando um ambiente onde o risco de cegueira de neve (uma queimadura solar temporária, mas dolorosa, da córnea) é extremo.
Gorro
Por vezes é subestimado, mas o gorro é uma peça crucial. Em altitudes extremas, o gorro não serve apenas para o conforto: ajuda a manter a temperatura interna do corpo, o que por sua vez mantém o sangue quente a circular até aos dedos das mãos e dos pés. O gorro principal, que deverá ser usado na maior parte do tempo, deve ser de lã merino para ser respirável, não ganhar odores facilmente e para continuar a aquecer mesmo que fique húmido do suor.
Outra opção é o gorro corta-vento, que bloqueia 100% do vento, evitando o arrefecimento súbito da cabeça durante a subida. Há ainda quem opte pela balaclava que, ao contrário do gorro, cobre toda a cabeça, pescoço e parte do rosto, deixando apenas os olhos (que estarão protegidos pelos óculos) de fora.
Para complementar, recomenda-se também a utilização de uma gola tubular, conhecido por ser o “substituto” moderno e técnico do cachecol tradicional. Em alta montanha, o cachecol de lã antigo foi abandonado porque é pesado, demora a secar e as pontas soltas podem prender-se em algum lado. Este “cachecol buff”, como também é conhecido, é um tubo de tecido sem costuras que retém a humidade e o calor da própria respiração, criando um microclima quente antes de o ar chegar aos pulmões.
Ao contrário de um cachecol, que tem aberturas, o buff veda completamente a entrada de ar frio pelo colarinho do casaco e protege o queixo, o pescoço e a zona por baixo das orelhas.
Outros acessórios essenciais
Para o descanso noturno, o montanhista deve contar com um saco-cama de alta qualidade com classificação de conforto para pelo menos -15ºC, acompanhado de um isolante térmico que impeça a perda de calor para o solo gelado. A iluminação deve ser assegurada por uma lanterna de cabeça potente com pilhas de reserva, essencial para as horas de subida noturna em direção ao cume.

No que toca à hidratação, é recomendado um sistema combinado de uma bolsa de água para beber regularmente durante o dia e garrafas rígidas do tipo Nalgene, que podem ser enchidas com água quente à noite para servir de botija de aquecimento dentro do saco-cama.
É importante ainda estar preparado com um kit de primeiros socorros com medicação para o mal da altitude, analgésicos e pensos para bolhas. Para a higiene, dada a ausência de duches na montanha, os toalhetes húmidos e o desinfetante de mãos são os substitutos práticos para manter a limpeza básica ao longo de uma semana.
Apesar de este ser o equipamento base para as grandes altitudes, a escolha final varia significativamente consoante a montanha. O equipamento para o Kilimanjaro, por exemplo, difere do equipamento necessário para o K2 ou Evereste, que exige material técnico de escalada muito mais agressivo devido à inclinação e dificuldade da rocha. Cada cume dita, por isso mesmo, as suas próprias regras.








