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A jornada de João Garcia pelas 14 montanhas mais altas do mundo

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A 17 de abril de 2010, o alpinista João Garcia (e líder de viagem da Papa-Léguas) pisou o cume do Annapurna, a montanha que lhe faltava para completar o desafio de escalar as 14 montanhas mais altas da terra. Um objetivo que demorou 17 anos a ser cumprido ‒ e que começou em 1993, quando João Garcia deu início à sua primeira expedição a um “8000”, um pico com mais de 8000 metros. 

Ao longo de quase duas décadas, o alpinista enfrentou algumas das condições mais extremas do planeta, sobrevivendo a tempestades, temperaturas negativas e à escassez de oxigénio. Cada montanha representou um desafio diferente e uma nova etapa rumo à concretização de um sonho que poucos alpinistas conseguem alcançar.

Cho Oyu (8.188m) – 1993

Em 1993, João Garcia alcançou o cume do Cho Oyu, localizado na fronteira entre o Nepal e o Tibete. Com 8.188 metros de altitude, o Cho Oyu ‒ cujo nome significa “Deusa Turquesa” ‒ é a sexta montanha mais alta do mundo. Apesar de integrar o restrito grupo das 14 montanhas acima dos 8000, é frequentemente considerada uma das mais acessíveis do ponto de vista técnica.

A montanha foi escalada pela primeira em 1954 por uma expedição austríaca liderada por Herbert Tichy. Desde então, tornou-se uma das montanhas mais procuradas por alpinistas que ambicionam iniciar uma carreira nos grandes Himalaias.

Dhaulagiri (8.167m) – 1994

Um ano depois do Cho Oyu, João Garcia estava de volta aos Himalaias. Desta vez, para escalar o Dhaulagiri, que domina a paisagem nepalesa com os seus impressionantes 8.167 metros. O nome significa “Montanha Branca” e descreve perfeitamente o seu aspeto majestoso.

Durante muitos anos acreditou-se que seria a montanha mais alta do mundo. Embora essa teoria tenha sido posteriormente refutada, a sua imponência continua a impressionar exploradores e alpinistas.

Evereste (8.848m) – 1999

Foi à terceira tentativa, em 1999, que João Garcia se tornou o primeiro (e único) português a pisar o ponto mais alto do planeta sem oxigénio suplementar. O maior símbolo do alpinismo mundial, fica entre o Nepal e o Tibete e atrai todos os anos centenas de alpinistas que procuram alcançar o ponto mais elevado da terra.

A história do Evereste é marcada por triunfos e tragédias. Desde a primeira ascensão de Edmund Hillary e Tenzing Norgay, em 1953, milhares de pessoas tentaram repetir o feito. Contudo, o frio extremo, as avalanches, as tempestades repentinas e a escassez de oxigénio continuam a fazer vítimas.

Gasherbrum II (8.034m) – 2001

Em 2001, João Garcia juntou-se a uma expedição belga que rumava ao Paquistão para tentar escalar os Gasherbrum I e II. Na altura, só com dinheiro para uma licença, escolheu o II, considerado frequentemente como um dos 8000 “mais elegantes”.

O Gasherbrum II é a 13ª montanha mais alta do mundo e uma das joias mais impressionantes da cordilheira do Karakoram. Localizado na fronteira entre o Paquistão e a China, ergue-se numa das regiões mais remotas e selvagens do planeta.

Gasherbrum I (8.068m) – 2004

Depois de ter subido ao Gasherbrum II, em 2004 sentiu o “bichinho” de escalar o irmão maior, cuja beleza já a tinha admirado ao longo, uma vez que partilham ambas o campo-base. Com 8.068 metros de altitude, é a 11ª montanha mais alta do mundo e é conhecida como Hidden Peak (“Pico Escondido2), uma vez que permanece oculto da vista durante grande parte da aproximação.

O Gasherbrum I distingue-se pela sua forma elegante e pela sua localização remota. A primeira ascensão bem sucedida ocorreu em 1958, quando uma expedição norte-americana liderada por Nicholas Clinch alcançou o cume.

Lhotse (8.516m) – 2005

Em 2005, o regresso ao Nepal. Com 8.516 metros de altitude, o Lhotse é a quarta montanha mais alta do mundo e uma das mais impressionantes da cordilheira dos Himalaias. Situada na fronteira entre o Nepal e o Tibete, está intimamente ligado ao Evereste, do qual é separado apenas pelo Colo Sul.

O nome significa precisamente “Pico Sul”. Durante muitos anos, os exploradores consideraram os dois picos como parte do mesmo maciço montanhoso. A primeira ascensão ao cume foi realizada em 1956 por uma expedição suíça liderada por Ernst Reiss e Fritz Luchsinger e representou mais um marco importante na exploração dos grandes picos dos Himalaias. 

Kangchenjunga (8.586m) – 2006

Um ano depois, João Garcia riscou da lista mais um cume: o Kangchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo. Situada na fronteira entre o Nepal e o estado indiano de Sikkim, este imponente maciço com 8.586 metros de altitude domina a paisagem dos Himalaias orientais.

O seu nome significa “Os Cinco Tesouros da Grande Neve”, uma referência aos cinco picos principais que compõem o maciço. Segundo as crenças locais, estes cinco tesouros representam ouro, prata, pedras preciosas, cereais e livros sagrados. A primeira ascensão foi realizada em 1955 pelos britânicos Joe Brown e George Band.

Shishapangma (8.013m) – 2006

Foi em 2006 que João Garcia realizou um sonho: organizar uma expedição portuguesa a um pico de 8.000 metros. Foram ao Shishapangma,no Tibete, que ocupa o 14º lugar entre as montanhas mais altas do mundo. O nome, com origem na língua tibetana, é geralmente traduzido como “Crista sobre a Planície Herbosa” ou “A Montanha que se ergue sobre os campos”).

Devido ao isolamento político do Tibete durante grande parte do século XX, o Shishapangma foi a última das 14 montanhas acima dos 8000 metros a ser explorada por montanhistas estrangeiros. A primeira ascensão ao cume foi realizada em 1964 por uma expedição chinesa, tornando-se o último dos grandes gigantes da Terra a ser conquistado pelo homem.

K2 (8.611) – 2007

Depois de ter subido dois 8000 no mesmo ano, em 2006, o próximo objetivo era a montanha mais temida e cobiçada pelos alpinistas de todo o mundo: o K2. Em 2007, com uma equipa de especialistas, chegou ao cume da segunda montanha mais alta da Terra, com 8.611 metros de altitude.

O nome “K2” teve origem em 1856, quando o explorador britânico Thomas Montgomerie realizou o levantamento cartográfico da região. A letra K referia-se ao Karakoram e o número 2 indicava que era o segundo pico identificado naquela cadeia montanhosa. O K2 exige elevados conhecimentos técnicos, uma vez que as suas encostas são extremamente inclinadas, os troços de gelo e rocha são complexos e as condições meteorológicas podem mudar de forma repentina.

A primeira ascensão bem-sucedida ocorreu em 1954, quando os italianos Achille Compagnoni e Lino Lacedelli atingiram o topo após uma expedição épica. A conquista foi considerada um dos maiores feitos da história do alpinismo, devido às enormes dificuldades encontradas ao longo da subida.

Makalu (8.481m) – 2008

Com nove dos 14 “8000” já conquistados, o desafio estava já a chegar à sua fase final ‒ mas ainda faltavam escalar algumas montanhas. Uma delas era a Makalu, cujo cume foi conquistado em 2008. Com 8481 metros de altura, é a quinta montanha mais alta do mundo e uma das mais exigentes. 

Situada na fronteira entre o Nepal e o Tibete, destaca-se pela sua forma piramidal quase perfeita. A primeira conquista do Makalu ocorreu em 1955, quando uma expedição francesa liderada por Jean Franco alcançou o cume. 

Broad Peak (8.047m) – 2008

Ainda no mesmo ano, João Garcia chegou ao Broad Peak, a 12ª montanha mais alta do mundo, situada no norte do Paquistão, a poucos quilómetros do K2. O seu nome foi atribuído pelo explorador britânico Martin Conway, em 1891, devido à enorme extensão da sua crista somital. 

Ao contrário de muitos picos que terminam num cume bem definido, o Broad Peak apresenta uma longa aresta coberta de neve que se estende por vários quilómetros, criando a ilusão de que o cume nunca chega verdadeiramente. A primeira ascensão bem-sucedida ocorreu em 1957, quando uma expedição austríaca liderada por Marcus Schmuck alcançou o ponto mais alto da montanha.

Manaslu (8.156m) – 2009

Na primavera de 2009, veio o Manaslu, com os seus 8.156 metros de altitude. Localizada no centro do Nepal, ergue-se sobre vales profundos, aldeias tradicionais e antigos mosteiros budistas. O seu nome significa “espírito” ou “alma”, razão pela qual é frequentemente conhecida como a “Montanha do Espírito”.

Durante muito tempo, o Manaslu permaneceu relativamente desconhecido dos alpinistas ocidentais devido ao seu isolamento geográfico. A primeira conquista ocorreu em 1956, quando uma expedição japonesa alcançou o cume.

Nanga Parbat (8.126m) – 2009

No verão de 2009, João Garcia dirigiu-se para a 13ª montanha com mais de 8000 metros: Nanga Parbat, uma das mais temidas da história do alpinismo. Localizado na região de Gilgit-Baltistão, no norte do Paquistão, ergue-se de forma majestosa e isolada na extremidade ocidental dos Himalaias.

O nome significa “Montanha Nua”, uma referência às enormes paredes rochosas que se destacam entre os campos de neve e gelo. Contudo, ao longo do século XX ganhou a designação de “Montanha Assassino” devido ao elevado número de alpinistas que perderam a vida nas primeiras tentativas de ascensão.

Durante as décadas de 1930 e 1940, várias expedições alemãs tentaram alcançar o cume, mas muitas terminaram em tragédia. Avalanches, tempestades violentas e erros de avaliação provocaram dezenas de mortes, contribuindo para a reputação quase mítica da montanha. A primeira ascensão bem-sucedida só aconteceu em 1953, quando o austríaco Hermann Buhl alcançou sozinho o cume.

Annapurna (8.091m) – 2010

Os ponteiros do relógio apontavam para as 13h30 locais quando João Garcia chegou ao cume do Annapurna, no dia 17 de abril de 2010, dando por concluído o desafio de subir as 14 montanhas mais altas do mundo. Situado no centro do Nepal, este maciço imponente é conhecido não apenas pela sua beleza extraordinária, mas também pela sua reputação como uma das mais perigosas do mundo.

O nome pode ser traduzido como “Deusa da Abundância” ou “Deusa das Colheitas”. Na tradição hindu, Annapurna é uma manifestação da deusa Parvati, responsável por fornecer alimento e prosperidade. O Annapurna entrou para a história do montanhismo em 1950, quando uma expedição francesa liderada por Maurice Herzog alcançou o cume. Foi a primeira montanha com mais de 8000 metros a ser conquistada pelo ser humano.

O livro “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo”, de João Garcia, conta as histórias na primeira pessoa do alpinista que escalou as 14 montanhas mais altas do mundo.

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