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A viagem como leitura do mundo

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Para quem viaja, o verbo ir assume um significado especial: é sempre uma partida para desbravar. Ao debruçarmo-nos sobre alguns aspetos da viagem — a antecipação, os motivos e o regresso a casa — percebemos que o caminho é, em si mesmo, a verdadeira viagem, mais do que o destino.

O livro A Arte de Viajar, de Alain de Botton, convida-nos a refletir sobre a beleza da viagem como um todo. O autor lembra-nos que vivemos rodeados de conselhos sobre para onde viajar, mas raramente nos questionamos sobre o porquê e o como de viajar. E é nesse espaço de reflexão que a viagem se cruza com a busca da felicidade, aquilo a que os gregos chamavam eudaimonia, a plenitude humana.

O tempo suspenso da viagem

A antecipação é parte essencial da experiência. Existe uma tensão entre a imagem que criamos de um lugar e a realidade que encontramos ao chegar. Alguns romancistas e misantropos chegaram mesmo a defender que a arte pode antecipar ou substituir a viagem. Ainda assim, é na experiência vivida que algo se transforma em nós.

Quando regressamos, diz Alain de Botton, o que permanece não é o tempo de espera ou de suspensão, mas o próprio lugar, filtrado pela memória e pela imaginação. Há uma pureza tanto naquilo que antecipamos como naquilo que recordamos.

No início do percurso, é interessante refletir sobre os lugares de passagem e os meios de transporte. Há quem destaque Baudelaire como o primeiro artista do século XIX a dar expressão à beleza desses espaços de partida e de chegada, impregnando-os de uma nostalgia romântica.

Os lugares de passagem e os meios de transporte também fazem parte da viagem. São espaços de devaneio, onde os sons, o movimento e a paisagem despertam pensamentos que raramente emergem no quotidiano. Não é por acaso que Alain de Botton afirma que «as viagens são as comadres do pensamento». Interessante, não é?

O outro como destino

O ato de viajar é movido pela curiosidade, pelo desejo de ultrapassar limites, de concretizar sonhos e de nos conhecermos melhor. É também um encontro com o outro — o estrangeiro — cuja língua, cultura e presença nos interpelam, muitas vezes logo num aeroporto, por exemplo.

Se alargarmos o termo e aprofundarmos esta temática, deparamo-nos com a palavra exótico, que acabou por se tornar sinónimo de Médio Oriente após a publicação, em 1829, do ciclo de poemas Les Orientales, de Victor Hugo. No prefácio, pode ler-se:

O Oriente importa-nos a todos, muito mais do que outrora. O Oriente tornou-se motivo geral de uma atenção, da qual este livro partilha.

Escritores como Byron e Walter Scott identificaram também estes traços peculiares, tal como alguns pintores que partiram para África com o propósito de captar esse exotismo oriental.

Mas será que o conceito de exotismo se limita ao Médio Oriente, ou será muito mais vasto? Se seguirmos a aceção mais banal, trata-se de estarmos num lugar estranho, confrontados com a simplicidade da novidade e da mudança.

Alain de Botton aprofunda o conceito:

Valorizaremos então as coisas estrangeiras, não só por serem novas, mas por parecerem confirmar a nossa identidade e a nossa atitude perante a existência mais firmemente do que fosse o que fosse o poderia fazer na terra natal. Acrescenta ainda que aquilo que nos parece exótico lá fora talvez seja aquilo por que ansiamos em casa.

Mais do que o estranho ou o distante, o exótico pode ser precisamente aquilo que nos falta em casa. O encontro com o outro acaba por confirmar algo sobre quem somos.

Talvez, por isso, o escritor, Afonso Cruz escreve em Jalan Jalan – Uma leitura do mundo:

A empatia é uma anulação da distância, é uma forma absoluta de viagem.

Viajar, tal como ler, é abrir-se ao outro, é dissolver fronteiras, é um convite silencioso à curiosidade e à tolerância.

Na viagem, há procura e sedução pelos detalhes e pelos pormenores. Por vezes, somos tomados pelo deslumbramento e pelo silêncio perante «lugares sublimes que nos recordam a nossa insignificância e fragilidade humanas». Há momentos em que o sublime se impõe — numa paisagem, num pôr do sol, num silêncio inesperado — e somos confrontados com a nossa vulnerabilidade perante a vastidão do mundo.

O eco do regresso

E o que nos fica no regresso a casa, depois dessa fuga ao quotidiano e desse abraço ao mundo? Quem somos após uma viagem? O escritor, radialista e viajante, Gonçalo Câmara, no livro Mesa para um — Crónicas de um viajante solitário, propõe esta reflexão:

No fim, a viagem não acaba quando voltas. Continua no modo como agora caminhas, no modo como ouves, no modo como já não te bastas com o que antes era suficiente. E é aí, nesse silêncio do regresso, que percebes: foste e voltaste outro. E isso chega-te.

Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que nasce da parceria com a agência de viagens Papa Léguas, dedicada a acompanhar pequenos grupos e a fazer viajantes felizes.

No último sábado de cada mês, a literatura cruza-se com o território: textos que aproximam livros e lugares, escrita e paisagem. O episódio pode ser ouvido nas plataformas habituais, e o texto lido no blogue da Papa Léguas.

Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.

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