Durante séculos, o isolamento foi uma constante para muitas comunidades remotas do planeta. Em zonas onde a estrada é um luxo e a eletricidade intermitente, a internet era, até recentemente, uma ideia tão distante quanto a própria capital. Mas isso está a mudar — e a mudança não vem da terra, mas do céu.
Com o lançamento da constelação de satélites Starlink, criada pela SpaceX de Elon Musk, o acesso à internet via satélite passou a ser possível em lugares onde nunca tinha chegado um único cabo. A promessa é simples: ligação rápida, mesmo no meio do nada. Mas a realidade, como sempre, é mais complexa.
Em 2023, o Brasil começou a instalar internet via Starlink em escolas remotas do Amazonas e do Pará. Imagens de crianças ribeirinhas a assistir a vídeos educativos, a usar plataformas de ensino online ou simplesmente a descobrir o Google pela primeira vez correram o mundo. Era, para muitos, o início de uma revolução. De repente, um estudante no meio da floresta podia ter acesso às mesmas ferramentas que um aluno em São Paulo ou Lisboa. A informação deixou de ser um privilégio urbano.
Mas o impacto desta transformação não é apenas técnico — é também social e cultural. A chegada da internet a estas zonas tem mudado a forma como as comunidades comunicam, aprendem, compram, vendem e até pensam sobre si mesmas.
Na comunidade indígena Marubo, também na Amazónia, a introdução da internet via satélite levantou preocupações. Em 2023, o New York Times publicou um artigo que sugeria que, com a nova ligação, aumentaram os casos de exposição a conteúdos impróprios, como pornografia, entre os jovens. A comunidade considerou o retrato ofensivo e inexato — e processou o jornal por difamação. Ainda assim, o caso levantou uma questão legítima: até que ponto a chegada abrupta da internet pode perturbar o tecido social de uma comunidade sem uma preparação adequada?
O acesso à internet traz benefícios óbvios: comunicação com familiares distantes, acesso a cuidados de saúde à distância, comércio digital de produtos locais, acesso a notícias globais e conteúdos educativos. Mas também acarreta riscos — especialmente em contextos onde não há literacia digital, nem filtros, nem estruturas para gerir o impacto do mundo inteiro a entrar por uma pequena aldeia adentro.
Na Mongólia, onde comunidades nómadas vivem em tendas circulares nas estepes geladas, o Starlink permitiu que veterinários acedam a bases de dados médicas e que famílias contactem os filhos a estudar na capital. Mas também há relatos de jovens que passam horas online e que, segundo os pais, se desligaram do rebanho — tanto no sentido literal como simbólico.
O mesmo se passa em zonas do interior da África Austral, como no Lesoto ou no norte do Quénia, onde pequenas aldeias começaram a usar a internet para vender artesanato diretamente a compradores internacionais. Um salto gigante em termos de autonomia económica. Mas também um confronto com realidades e consumos que antes não estavam presentes.
O que estes exemplos evidenciam é que a internet via satélite é uma ferramenta — poderosa, transformadora, mas que precisa de ser acompanhada. Não se trata de defender que estas comunidades devem ficar isoladas. Pelo contrário: o acesso à informação é um direito. Mas há uma diferença entre conectar e invadir. Entre oferecer oportunidades e impor modelos.
Para quem viaja, talvez o mais importante seja reconhecer que estamos a testemunhar mudanças profundas — e que não nos cabe julgar, mas escutar.

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