Desde que comecei a escrever para o blogue da Papa Léguas, o livro que proponho hoje já integrava a lista de sugestões. Agora, conhecendo a génese da agência, percebi que a obra «A Arte de Caminhar», de Erling Kagge faz todo o sentido.

O autor é considerado um dos grandes aventureiros e exploradores do nosso tempo, tendo sido a primeira pessoa a atingir, sozinha, o Polo Sul, após uma travessia solitária da Antártida durante 50 dias.
Num tempo rodeado de estímulos e de inúmeras solicitações, «caminhar é uma tarefa lenta. É uma das coisas mais radicais que podemos fazer.», afirma Erling Kagge. Caminhar propõe leveza, significado e espanto. Esta ideia conduziu-me a outra reflexão do filósofo e cardeal Tolentino Mendonça, que nos desafia a «reaprender o espanto» e a exercitar o olhar longo, mantendo os sentidos disponíveis para aquilo que a natureza e o mundo nos oferecem. Tolentino lembra que «consideramos hoje tão pouco o espanto, num tempo que nos programa para olhares breves, relances, observações fugidias e utilitárias, cada vez mais simplificadas».
Ao optarmos por fazermos um percurso a pé, em vez de carro, é como se iniciássemos uma amizade, um enamoramento, uma crescente familiaridade com o que nos rodeia. Erling Kagge descreve-o de forma belíssima: «A montanha que está à nossa frente, que vai mudando devagar à medida que nos aproximamos, parece um amigo íntimo ao chegarmos. Os nossos olhos, ouvidos, nariz, ombros, estômago e pernas falam com a montanha, e a montanha responde-lhes. O tempo expande-se, sem depender de horas ou minutos. (…) Caminhar expande o tempo em vez de o fazer colapsar.»
Neste exercício dos sentidos, os pés assumem um papel essencial. Erling Kagge acrescenta: «Os nossos pés são os nossos melhores amigos. Dizem-nos quem somos. Os pés entram em diálogo com os nossos olhos, nariz, braços, tronco e até com as nossas emoções.»
Somos, assim, convidados ao olhar longo, a «reencontrar o espanto» e a despertar os nossos sentidos, reforçando a ideia de que cada caminhada é uma experiência singular.
Ao trilharmos um caminho, é-nos oferecido um silêncio interior. Esse silêncio pode ser habitado — e cada um o habitará à sua maneira —, mas, como esclarece o autor norueguês, «a caminhada e o silêncio estão interligados. O silêncio é tão abstrato quanto o caminhar é concreto.»
Além do silêncio, caminhar permite-nos encontrar «respostas para perguntas que nem sequer sabíamos que fazíamos a nós mesmos». Há quem caminhe para se descobrir e há quem se descubra a caminhar, sem saber o que poderá encontrar. Afinal, «o passado e o futuro não desempenham qualquer papel quando caminhamos durante algum tempo, pondo um pé à frente do outro».
O caminho é individual. Como escreve Erling Kagge, «criamos [o caminho] à medida que caminhamos, mesmo quando caminhamos pelos mesmos trilhos». Talvez caminhar seja, afinal, uma das formas mais simples de reaprendermos o espanto e de nos reconciliarmos com o tempo, connosco e com o mundo.
A Papa Léguas propõe as seguintes viagens: Trekking pelas montanhas da Eslovénia entre 8 a 15 de agosto e A Pé pela Eslovénia entre 16 a 23 de agosto.
Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que ganha energia numa parceria com a agência de viagens Papa Léguas — especialista em guiar pequenos grupos a destinos “fora da caixa”, com o propósito de “fazer viajantes felizes”.
No último sábado de cada mês, a literatura encontra o caminho: textos que cruzam livros e lugares, palavras e paisagens. Pode ouvir o episódio e ler o texto no blogue da Papa Léguas.
Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.
As citações lidas são originais dos livros «A Arte de Caminhar», de Erling Kagge e de «O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas», de José Tolentino Mendonça, da Quetzal, chancela do grupo editorial Bertrand Círculo.










