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Viajar antes de partir: com Marguerite Duras pela antiga Indochina

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Para me inspirar para a próxima viagem, hesitei entre vários livros, mas acabei por escolher uma obra que li em março de 1996, cuja ação decorre no sul do Vietname e no Cambodja: «O Amante», de Marguerite Duras, romance distinguido com o Prémio Goncourt em 1984.

Por vezes, quando parto em viagem, a literatura que me acompanha não é necessariamente aquela que se classifica como “literatura de viagens”. Os livros de ficção — ou com fortes traços autobiográficos — podem sugerir lugares e tornar-se um convite a viajar de outra forma, através do olhar de quem se deixou inspirar por paisagens, cheiros, sabores e pessoas.

Marguerite Duras é o pseudónimo de Marguerite Donnadieu. Curiosamente, o apelido que escolheu para se afirmar no mundo da escrita, tem ligação a uma localidade no sudoeste de França, onde o pai tinha uma propriedade, numa região chamada Duras. Ao adotar esse nome, a autora criou uma ligação mais íntima com a sua história familiar e, ao mesmo tempo, construiu uma identidade literária distinta.

A escritora nasceu em Saigão, hoje Ho Chi Minh City, situado no Sul de Vietname. No romance O Amante, vivemos entre a ficção e a autobiografia. Aliás, Duras transformou a sua vida num longo romance, manipulando o seu universo biográfico e convertendo-o em matéria literária.

Nesta obra, recria uma relação proibida e perturbadora entre uma menina menor de idade, branca e filha de colonos franceses, com um amante chinês. Duras escreve:

Tenho quinze anos e meio e não há estações neste país, estamos numa estação única, quente, monótona, estamos na longa zona quente da terra, não há Primavera, não há renovação.

A paisagem da Indochina, o atual Vietname, assume-se como personagem no livro. O delta do rio Mékong bem como as travessias de ferry pelo rio, um dos momentos mais icónicos do livro, marcam a história que decorre durante o período colonial francês (1920-1930):

Olho o rio. A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mékong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse.

No O Amante, a Indochina é mais do que um lugar geográfico, expõe a desigualdade social e racial e a tensão entre colono e colonizador.

A narrativa revela-nos o mistério intrigante e rotineiro do crepúsculo como um convite à contemplação e ao olhar atento: O crepúsculo caía à mesma hora todo o ano. Era muito curto, quase brutal. Na estação das chuvas, durante semanas, não se via o céu, estava envolto num nevoeiro uniforme que nem a luz da Lua atravessava. Na estação seca, em contrapartida, o céu estava nu, descoberto na sua totalidade, cru. Até as noites sem Lua eram iluminadas. E as sombras estavam igualmente desenhadas no chão, nas águas, nos caminhos, nas paredes.

E conclui: É uma cidade de prazer que atinge o auge à noite. E a noite começa agora com o pôr do Sol.

No entanto, o romance convida-nos a despertar outros sentidos, para além do olhar contemplativo. O olfato assume um papel central quando Duras escreve: Um cheiro de caramelo invade o quarto, o cheiro dos amendoins torrados, das sopas chinesas, das carnes assadas, das ervas de cheiro, do jasmim, do pó, do incenso, do lume de carvão, o fogo transporta-se aqui em cestos, vende-se na rua, o cheiro da cidade é o das aldeias do mato, da floresta.

Ler este romance é atravessar um território de memórias e de contrastes. É viajar por uma Indochina simultaneamente real e reinventada.

Ao regressar a esta obra tantos anos depois, percebo que algumas viagens começam muito antes da partida. Começam nas páginas de um livro, no ritmo de uma frase, na evocação de um rio ou de um crepúsculo. E talvez seja isso que procuro quando escolho o que ler antes de partir: não apenas um destino, mas uma forma de o sentir.

Porque há lugares que se visitam… e outros que, primeiro, se leem.

As citações lidas são originais do livro «O Amante», de Marguerite Duras, da Relógio D’Água.

Entre 10 e 27 de abril, a Papa Léguas propõe a viagem À descoberta do Sudeste Asiático, se partisse, levaria este livro no bolso, porque há viagens que começam muito antes da partida.

Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que nasce da parceria com a agência de viagens Papa Léguas, dedicada a acompanhar pequenos grupos e a fazer viajantes felizes.

No último sábado de cada mês, a literatura cruza-se com o território: textos que aproximam livros e lugares, escrita e paisagem. O episódio pode ser ouvido nas plataformas habituais, e o texto lido no blogue da Papa Léguas.

Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.

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