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Alguma coisa a declarar, Carla Henriques?

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Nome: Carla Henriques

Alguns dos destinos que lidera: Bolívia, Chile, Etiópia, Indonésia, Omã, Socotra e Sri Lanka

A Carla começou a viajar desde cedo, explorando primeiro Portugal e, mais tarde, o resto do mundo. Aos 19 anos fez o primeiro Interrail e, em 2013, partiu numa viagem de quase dois anos pela Ásia. Gosta de viajar devagar e com tempo para conhecer as culturas, as pessoas e os modos de viver. Licenciada em Engenharia do Ambiente, acredita que viajar é sair da zona de conforto e criar memórias para a vida: da maior gruta do mundo a casamentos no Vietname, de mergulhos com tubarões a projetos solidários.

  • Alguma vez uma viagem te mudou a forma de ver o mundo?

Todas! Acho que esse é também um dos objetivos de viajar. Cada lugar que conheço faz-me ver o mundo com outros olhos. Viajar ajuda-nos a quebrar “pre-conceitos”, e ao ouvir as pessoas percebemos que há sempre algo a aprender, sobre o mundo, sobre os outros e muito sobre nós. No fundo, é algo que gosto nas viagens: voltamos diferentes, mesmo que o destino seja o mesmo.

  • Qual foi o momento mais inesperado que já viveste numa viagem?

Momentos inesperados, muitos… Mas se fosse tudo previsível, também não ficaríamos com tantas histórias para contar. Já tive voos de regresso cancelados na véspera por causa de tufões, tive de levantar acampamento a meio da noite porque começou a chover torrencialmente e a passagem dos jipes ia ficar bloqueada, fui à Patagónia pronta para fazer trekking e dei de caras com uma greve geral dos guardas do parque, que me impediu de cumprir o objetivo. Já fui deportada, recebi convites aleatórios para casamentos, já me vi a aparecer na TV nacional na Albânia e vivi tantas outras situações que só viajando se explicam.

Mas as melhores histórias geralmente não estão no roteiro.

  • Qual foi a refeição mais memorável (boa ou má!) que tiveste em viagem?

As refeições mais memoráveis que tenho são em Socotra. O nosso querido chef cozinha sempre o peixe mais fresco do mundo — e, se for a época certa, até umas lagostas aparecem na mesa. De manhã há panquecas, e ao longo do dia tantos outros mimos preparados com tanto carinho. Tudo é simples, mas feito com amor. E comer assim, com aquele cenário de sonho e os pés na areia, torna tudo ainda mais especial. Já estou cheia de saudades!

  • Algum encontro com pessoas locais que nunca vais esquecer?

Recentemente, viajei pela Papua Nova Guiné e passei uma noite numa vila no meio das montanhas, conhecida pelos seus “espíritos de água”. Fomos recebidos com uma curiosidade enorme e uma hospitalidade incrível — houve festa, música e muitos sorrisos. Mas o momento que mais me marcou foi na manhã seguinte. Depois de uma noite de chuva intensa, as estradas íngremes transformaram-se em autênticos trilhos de lama, e o nosso autocarro ficou preso. Sem hesitar, a vila inteira juntou-se: uns puxavam com cordas, outros empurravam, e alguns até saltavam dentro do autocarro para ajudar a ganhar tração! Foi um verdadeiro trabalho de união, uma demonstração de força e solidariedade que nunca vou esquecer.

Também na Síria senti uma hospitalidade geral pelo país que nunca tinha experimentado. As pessoas são extremamente gentis.

  • O que nunca falta na tua mochila, mesmo em viagens curtas?

Há umas quantas coisas que já vão de forma automática para a mochila, mas tudo normal: poncho para a chuva, óculos de sol, um lenço, headphones, livro, lápis e caneta. Ah, tenho sempre comigo uma pedra de proteção que me ofereceram, nunca se sabe!

  • Tens algum ritual ou mania antes de começar uma viagem?

Tentar dormir uma noite bem dormida e nunca conseguir…Pode ser que seja na próxima.

  • Qual foi a maior lição que aprendeste a viajar?

Viajar ensinou-me que sair da zona de conforto não é um risco — é um convite. Porque é nesse desafio que a vida acontece de verdade.

  • Qual foi o maior susto ou peripécia que já te aconteceu numa viagem?

O primeiro que me vem à memória foi na Etiópia, em 2023, durante uma viagem exploratória. Os conflitos armados na região de Amhara tinham escalado recentemente e, logo à chegada a Bahir Dar, deparámo-nos com um recolher obrigatório. Quando tentámos seguir de Gondar para Lalibela, ficámos horas parados num bloqueio de estrada. A certa altura tentámos passar, mas quando as armas foram apontadas, voltámos rapidamente para trás. Mais tarde, seguimos devagarinho, mas começaram a disparar, e o caos instalou-se: carrinhas a fazer inversão de marcha por todo o lado. Escusado será dizer que nesse dia não chegámos a Lalibela. Três dias depois, quando finalmente já estávamos era a sair de Lalibela, ouvimos um estrondo. O nosso guia, com toda a calma e carinho do mundo, disse-nos apenas que íamos sair dali e seguir diretos para o aeroporto. Nesse dia, Lalibela foi invadida por forças rebeldes e ficou fechada durante uma semana.
Agora, Lalibela só de avião! E o resto da região… terá de esperar para ser visitada.

Outro grande susto que tive foi na Macedónia do Norte, quando aceitei boleia de um homem que acabou por desviar o carro para estradas secundárias e teve um comportamento completamente inapropriado. Foi um dos momentos em que senti mais medo, mas felizmente consegui sair e pedir ajuda. Desde então, nunca mais aceitei boleias de desconhecidos sozinha.

Estes episódios ensinaram-me que viajar é também aprender a reconhecer os nossos limites e a confiar no instinto.

  • Um cheiro ou som que te transporta imediatamente para um destino visitado?

Há um cheiro a terra húmida que, sempre que o sinto, me leva de volta a Myanmar. Nem consigo explicar muito bem porquê, mas há algo nesse aroma que me transporta de imediato para lá — como se, por uns instantes, estivesse novamente naquele ambiente tão especial. Com muita pena minha, não sei quando será possível regressar fisicamente… mas, de certa forma, esse cheiro faz-me voltar um bocadinho sempre que aparece.

  • Qual foi a paisagem que mais te deixou sem palavras?

Há várias paisagens que já me deixaram completamente sem palavras.

O nascer do sol em Bagan, naquele mar de templos e balões de ar quente coloridos, ou o nascer do sol em frente ao majestoso Monte Bromo. Ver aquele vulcão a erguer-se por entre as nuvens, como se flutuasse, foi algo que me arrepiou e confesso que me deixou com lágrimas nos olhos.

Outro local é Hang Son Doong, a maior gruta do mundo, com cenários que parecem de outro planeta. A luz entra pelas “doorlines” e cria ecossistemas próprios, no meio de formações rochosas com centenas de milhares de anos.

O Salar de Uyuni, principalmente quando aquela imensidão fica coberta pela quantidade perfeita de água, transformando-se no maior espelho do mundo, é absolutamente inacreditável. Ver o céu e a terra fundirem-se num só horizonte é uma sensação difícil de descrever.

E há também a Depressão de Danakil, na Etiópia, o local mais quente do mundo. Um cenário quase irreal, com paisagens vulcânicas, lagos de ácido e uma paleta de cores que vai do amarelo ao laranja e ao verde. Parece um planeta alienígena.

Socotra, com as suas praias de água turquesa e areia branca, florestas de árvores sangue de dragão e outras tantas com formatos que nos fazem crer que dançam quando ninguém está a ver, é outro lugar que parece saído de um sonho.

E sem nomear nenhuma em específico, as paisagens de montanha são sempre de cortar a respiração algumas, literalmente!

São lugares que, por mais fotos que se veja, só ao vivo se entende o impacto que têm.

  • Se tivesses de escolher uma viagem só pela música local, qual seria?

Acho que escolheria uma viagem algures no Médio Oriente ou a Mali.

Médio oriente porque há algo no som daqueles instrumentos que me hipnotiza. O ritmo, as melodias e a forma como a música parece contar histórias antigas. Há uma melancolia e uma intensidade que me tocam de uma forma difícil de explicar.

Já o Mali atrai-me porque está profundamente ligado à própria história da música. É considerado o berço do blues e de muitos ritmos que influenciaram a música moderna. O som das koras e das guitarras locais tem uma alma única, quase ancestral. Entre o deserto e o som das cordas, acho que seria uma viagem de arrepiar.

Mas até hoje, a viagem onde dancei mais foi, sem dúvida, à Colombia! Terra da salsa, da cumbia e de uma alegria contagiante. Lá, a música faz parte da vida quotidiana — ouve-se nas ruas, nos autocarros, nos mercados, e é impossível ficar parado. É um país onde o corpo se move antes mesmo de perceber o ritmo.

  • Um objeto que trouxeste de viagem e que tem um grande valor sentimental?

Não é propriamente um objeto, mas sim duas tatuagens que tenho e que têm um enorme valor sentimental. A primeira fiz durante uma viagem de dois anos — um símbolo de uma fase muito importante da minha vida. A segunda é um símbolo de proteção do viajante, que fiz nas Filipinas, na vila de Buscalan, no norte da ilha de Luzon, com a lendária Apo Whang-Od, a tatuadora mais velha do mundo

  • Qual seria a tua viagem de sonho se o dinheiro não fosse problema?

Faria umas quantas, e com pessoas de quem gosto ao meu lado. Ir à Antártida, ao Alasca, passar tempo com comunidades indígenas na Amazónia, explorar a Gronelândia, a Nova Zelândia e cruzar África de uma ponta à outra.
Bem, na verdade, acho que iria a todo o lado, se houvesse dinheiro, tempo e saúde!

  • Algum animal selvagem ou situação na natureza que te tenha marcado especialmente?

Sou uma apaixonada pela natureza e pela vida selvagem, e sinto-me muito sortuda por já ter visto, com os meus próprios olhos, animais que antes achava que só veria nos documentários da BBC. Mantas gigantes, tubarões, dezenas de leões-marinhos juntos, boobies de pata azul, as tartarugas gigantes centenárias nas Galápagos, pinguins, preguiças, casuar, aves do paraíso, tartarugas a nadar e outras a desovar, iguanas marinhas, pandas, elefantes, leopardos, lamas, dragões de Komodo, tubarões-baleia, centenas de golfinhos a nadar em conjunto, macacos de vários tamanhos e cores, orangotango-de-bornéu, babuínos-gelada da Etiópia … e tantos outros encontros inesquecíveis.
Cada um desses momentos foi sempre muito especial
! Mas ainda tenho um grande sonho por realizar: um safari em África.

  • Que destino te surpreendeu pela positiva… e qual é que te desafiou mais?

Pela positiva, acho que a grande maioria dos destinos me surpreendeu, seja pelas paisagens, pelas pessoas, pela comida ou até pela companhia. Cada lugar tem sempre algo que nos marca de forma inesperada.

Mas há duas viagens que, até hoje, foram mais desafiantes para mim. Uma foi o Líbano. É um país bonito, com uma comida incrível, muita história e onde fui muito bem recebida. Mas não sei se por estar cansada, por ter levado expetativas muito altas, ou por ouvir demasiadas histórias de guerra, Hezbollah, refugiados, bombas… vivi esta viagem de forma muito pesada. Foi das poucas vezes em que, no final, só queria regressar a casa.

A outra foi à Papua Nova Guiné, sobretudo pela questão da segurança. É um país riquíssimo culturalmente, mas que ainda vive num sistema tribal que dá a sensação de uma panela de pressão constante. É um lugar fascinante e bastante intenso.

  • O carimbo de passaporte mais difícil (ou estranho) de conseguires?

O carimbo mais difícil de conseguir foi, sem dúvida, o dos Estados Unidos da América . Já o mais estranho foi em Chipre. A ilha é metade turca, metade grega, e a capital, Nicósia, é a única capital europeia dividida por uma fronteira física. Lembro-me de estar num bazar cheio de cores e cheiros, com um senhor a carimbar passaportes num pequeno posto de controlo. Atravessei a rua e, de repente, parecia que estava na Rua Augusta. Mudou a língua, a arquitetura, a moeda, o ambiente… tudo! É uma sensação curiosa, quase como atravessar uma fronteira invisível entre dois mundos.

  • Tens alguma história de “perdido e achado” em viagem?

Só de perdido… Na sequência da tentativa falhada de dormir bem antes de uma viagem, acabei por levar a carteira no bolso do casaco — com todos os meus cartões lá dentro. Nunca faço isso, gosto sempre de os ter em sítios diferentes, mas naquele dia, assim foi. Quando fiz escala no aeroporto do Qatar, fui à casa de banho e pendurei o casaco no cabide. E… ali ficou.
Só dei conta quando aterrei — e a única coisa que tinha era o passaporte na mão!
O grupo que recebi três dias depois foram os meus verdadeiros “pombos-correio”, trazendo-me de Lisboa tudo o que precisava para continuar a viagem. No fim, correu tudo bem! Foram apenas três primeiros dias mais complicados, a viver da boa fé das pessoas maravilhosas que há neste mundo.
De encontrado, apenas amigos, de forma totalmente aleatória, em lugares inesperados. Ouvir um “Carla?” dito num tom familiar, em qualquer canto do mundo, é sempre o início de um bom momento.

  • Se pudesses reviver uma viagem do início ao fim, qual seria?

Não sei se gostaria de reviver uma viagem do princípio ao fim, prefiro sempre as viagens novas. Cada uma acontece no momento certo, com as pessoas certas, e deixa memórias que pertencem àquele tempo. O que mais me inspira é o desconhecido que ainda está por vir, porque é nele que a magia das viagens realmente acontece.

  • Numa frase: o que significa para ti ser líder de viagem?

Ser líder de viagem é ajudar a criar memórias e conexões genuínas, enquanto apoias cada pessoa na descoberta do mundo e de si própria.

Se estas histórias te despertaram a curiosidade e a vontade de descobrir o mundo de forma autêntica, junta-te à Carla Henriques nas suas próximas viagens com a Papa-Léguas.

Vem partilhar momentos únicos, paisagens inesquecíveis e experiências que só quem viaja com quem conhece o caminho de forma tão apaixonada consegue proporcionar!

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