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Davide Enia e a Alma de Palermo

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Quando viajo, gosto muitas vezes de incluir nas minhas leituras, autores oriundos do destino para onde parto. Nem sempre escrevem sobre a história do seu lugar ou situam aí os seus romances, mas há casos em que literatura, território e memória se cruzam de forma particularmente intensa. Nesses encontros, adensa-se a identidade e revela-se uma combinação rica entre a origem do escritor e as influências da sua escrita.

Desta vez, parti para a Sicília acompanhado por Davide Enia e pelo seu livro “Autorretrato Instruções para sobreviver à Máfia”.

O escritor mergulha no retrato de um período temerário e aterrador, marcado pela violência da máfia, da Cosa Nostra.

A “banalidade do mal”, expressão da pensadora e filósofa, Hannah Arendt, invade o quotidiano e confronta-nos com “a matança de Palermo, a guerra mafiosa dos anos oitenta.”

Adaptado ao teatro, o livro ganha uma dimensão ainda mais intensa através das sinergias entre literatura e representação. Somos conduzidos por diferentes momentos narrativos que acompanham o regresso de Davide Enia à infância, ao crescimento e ao questionamento sobre o contexto atroz que o rodeava. Mais tarde, o autor “empresta a sua voz a três investigadores que, movidos por uma obsessão, uma vocação, um dever, lutaram e derrotaram o braço armado da máfia.”

Os lugares possuem sempre vários matizes, e a história de uma região é inevitavelmente feita de contrastes. Ao contar-se a si próprio, o escritor observa que, naquele tempo, “Palermo torna-se uma cidade encerrada entre os seus dois tons: a luz e a sombra.” Aqui não se esquece que a inquietação pode ser iluminada “no cimo do monte Pellegrino ou para os penedos de Addaura”.

A cidade desperta todos os sentidos, sem nunca esquecer a influência fenícia. Sim, os Fenícios — “um povo incrível” — fundaram Palermo, a capital da maior ilha do Mediterrâneo, um lugar onde “a força da natureza e o peso da história se fundem”.

O livro deixa ainda uma interrogação particularmente inquietante: até que ponto vemos verdadeiramente a cidade onde nascemos? Como a sentimos? Será que só a conhecemos quando partimos? E quando regressamos, de que forma a redescobrimos?

Quando nunca saímos do nosso lugar, para o estrangeiro, corremos o risco de acreditar, com leviandade, que ele é uma “espécie de mundo em miniatura”. Davide Enia desfaz essa ilusão com clareza:

“Não é verdade. Palermo é Palermo. O mundo é o mundo.”

Talvez seja essa uma das grandes razões para viajar e ler ao mesmo tempo: perceber que nenhum lugar contém o mundo inteiro, que não são apenas geografias, cada cidade guarda uma linguagem própria – vozes, cicatrizes, sombras e permanências.

Entre 26 de setembro e 5 de outubro, a Papa Léguas propõe a viagem “Sicília: Tesouros do Mediterrâneo” — um convite a descobrir uma ilha onde a beleza, a memória e a história convivem em permanente contraste.

Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que ganha energia numa parceria com a agência de viagens Papa-Léguas — especialista em guiar pequenos grupos a destinos “fora da caixa”, com o propósito de “fazer viajantes felizes”.
No último sábado de cada mês, a literatura encontra o caminho: textos que cruzam livros e lugares, palavras e paisagens. Pode ouvir o episódio e ler o texto no blogue da Papa Léguas.
Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.

As citações lidas são originais do livro “Autorretrato”, de Davide Enia, da D. Quixote, chancela da Leya.

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