Há regiões da Europa que ainda escapam ao radar do turismo de massas. Os Alpes Albaneses, no norte da Albânia, são uma delas. Selvagens, isoladas e profundamente autênticas, estas montanhas escondem não só trilhos deslumbrantes como também um modo de vida que está a mudar — o dos pastores que ainda vivem aqui.
Viajar por esta região é mais do que fazer trekking. É entrar num território onde o quotidiano rural mantém uma ligação direta com o passado, sem mediações.
Um trekking entre vales
O trilho entre Valbonë e Theth é o mais popular da região. Com cerca de 17 km, atravessa uma das zonas mais preservadas da Albânia. A caminhada leva-nos por florestas densas, campos abertos e um desfiladeiro impressionante, sempre com a montanha a dominar o horizonte.
As aldeias de Theth, Valbonë, Lepushe e Curraj i Epërm são pequenos aglomerados que, durante décadas, viveram quase totalmente desligados do resto do país — sobretudo nos longos meses de inverno. A agricultura de subsistência, a pastorícia e a vida comunitária foram durante muito tempo a base da sobrevivência.
Hoje, a maioria das famílias que ainda cria gado nas montanhas fá-lo num sistema tradicional, baseado em práticas transmitidas oralmente. Ordenham as vacas e cabras manualmente, produzem queijo e iogurte, e deslocam os animais entre pastos de verão e de inverno — uma prática transumante que remonta há séculos atrás.
No entanto, esta realidade está em declínio. Segundo dados do governo albanês, o número de famílias dedicadas à pastorícia nas montanhas caiu drasticamente nas últimas décadas, sobretudo após os anos 90, com o colapso do regime comunista e a abertura das fronteiras. A emigração para Itália, Grécia e países nórdicos esvaziou muitas aldeias.
Durante trekkings organizados na região, é comum encontrar-se ainda alguns pastores ativos — geralmente homens mais velhos — que mantêm os rebanhos e vendem produtos diretamente aos visitantes. As casas de família oferecem alojamento e refeições, muitas vezes com produtos produzidos no local.
O turismo de natureza trouxe alguma renovação económica. A construção de pequenas unidades de alojamento familiar e a renovação de trilhos permitiram manter algumas pessoas ligadas à terra. Em zonas como Theth e Valbonë, este modelo está a tornar-se central para a sobrevivência das comunidades locais.
No entanto, há desafios: a sazonalidade do turismo, praticamente só entre maio e setembro, a falta de infraestruturas, e o risco de descaracterização do território. A introdução de estradas asfaltadas, por exemplo, facilitou o acesso, mas também aumentou a pressão sobre os recursos locais.






Quem visita esta região deve fazê-lo com respeito e atenção. Apoiar alojamentos geridos por famílias locais, caminhar com guias da região e consumir produtos feitos nas aldeias são formas simples de contribuir para uma economia mais justa e sustentável.
Ao contrário de outras zonas da Europa onde a vida rural se tornou cenário de museu, aqui ainda é vivida — com as suas dificuldades, mas também com dignidade. Não é uma viagem para retroceder no tempo, mas para compreender melhor como estas montanhas estão hoje: algures entre a tradição e o futuro.
A Albânia está a crescer como destino turístico. E isso inclui também os seus territórios mais remotos. Nos próximos anos, é natural que aumente a pressão sobre as montanhas do norte: mais visitantes, mais desenvolvimento, mais procura por experiências autênticas.
Viajar para os Alpes Albaneses permite conhecer a região num ponto de equilíbrio ainda raro — onde a autenticidade não foi (ainda) formatada, e onde o contacto com as pessoas é direto, simples e genuíno. Como deve ser.






