1º episódio da série “Volta ao Mundo de A a Z”, uma jornada pelo mundo onde cada destino é uma descoberta. Hoje, falamos sobre um país que é um dos segredos mais bem guardados da Europa: a Albânia.
A Albânia está a tornar-se um dos destinos de praia mais surpreendentes da Europa, conhecida pelas suas águas cristalinas e costa ainda pouco explorada. No entanto, por trás deste cenário idílico, existe uma história recente palpável em cada esquina. É um lugar onde o passado, por vezes sombrio, é hoje a maior curiosidade de quem o visita.
Uma paisagem marcada por bunkers
Ao explorar o território albanês, é impossível não notar estruturas de betão em forma de cogumelo que pontilham a paisagem: estão nas praias, nos jardins privados, nas montanhas e até no meio de campos agrícolas. Estima-se que existam mais de 170 mil bunkers espalhados pelo país ‒ e em algumas regiões há mesmo mais bunkers do que casas.
Estas construções não são ruínas históricas milenares, mas sim as cicatrizes de um dos regimes mais isolacionistas e paranóicos da história do século XX. Sob o comando de Enver Hoxha, o líder comunista que governou a Albânia durante quatro décadas (entre 1944 e 1985), o país viveu mergulhado num medo constante de uma invasão estrangeira que nunca ocorreu.
O regime de Enver Hoxha e o isolamento da Albânia
Hoxha foi responsável por construir um dos regimes mais isolado da Europa. O país foi cortando relações com vários aliados ao longo do tempo, incluindo a União Soviética e mais tarde a China, o que reforçou uma visão cada vez mais fechada e desconfiada do mundo exterior. Neste contexto, o regime passou a acreditar que a Albânia estava constantemente sob ameaça de invasão.
Foi essa mentalidade que levou à criação de um dos projetos mais marcantes do país: a construção de mais de 170 mil bunkers por todo o território. A ideia era que qualquer cidadão pudesse ter acesso imediato a abrigo e defesa em caso de ataque, transformando o país inteiro numa espécie de fortaleza preparada para uma guerra que nunca chegou a acontecer.

Com o fim do regime, muitas destas estruturas perderam completamente a função militar ‒ mas não desapareceram. O que antes era um símbolo de isolamento e medo, tornou-se um dos elementos mais fascinantes e bizarros da identidade albanesa.
O legado dos bunkers
O que torna a história da Albânia fascinante é a forma como o povo local, com a sua resiliência e criatividade inatas, soube lidar com este legado de betão armado. Em vez de esconder ou demolir as estruturas ‒ uma tarefa quase impossível devido à quantidade ‒ muitas foram transformadas em cafés peculiares, estúdios de arte, armazéns de cultivo ou até pousadas excêntricas para viajantes que procuram algo além do turismo de sol e mar. Eis alguns exemplos:
- Bunk’Art 1 (Tirana)
Um dos exemplos mais famosos é o Bunk’Art 1, um bunker gigante subterrâneo que foi transformado num museu de arte e história contemporânea, focado no período comunista e na vida sob o regime de Enver Hoxha. Com mais de 100 salas subterrâneas, é uma das atrações culturais mais visitadas da capital.
- Bunk’Art 2 (Tirana)
No centro da capital encontra-se o Bunk’Art 2, outro bunker transformado em museu, desta vez focado na polícia secreta do regime (Sigurimi). O espaço recria antigas celas, salas de interrogatório e sistemas de vigilância, oferecendo uma experiência mais emocional e imersiva sobre a repressão política.
- War Bunker Hostel Bar (Sarandë)
Em Sarandë existe também o War Bunker Hostel Bar, um espaço que combina alojamento e bar num edifício com forte inspiração militar e elementos de bunker. O local foi adaptado para funcionar como hostel, mantendo o ambiente industrial e bruto, mas com uma estética mais moderna e turística.












