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A cidade fantasma que desapareceu dos mapas durante anos

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No sudoeste do Azerbaijão, junto às estepes que se estendem até à cordilheira do Cáucaso, podemos encontrar Agdam, uma cidade marcada pela guerra, pelo abandono e pela destruição. O seu nome já foi sinónimo de vida, comércio e cultura, mas hoje é um símbolo silencioso de um conflito que moldou profundamente o destino da região.

Agdam foi fundada no século XVIII e recebeu oficialmente o estatuto de cidade em 1828, durante o período do Império Russo. Localizada a cerca de 365 km da capital Baku, a cidade floresceu durante o século XX com uma economia diversificada, incluindo indústrias têxteis, agrícolas e metalúrgicas, escolas técnicas, médicas e culturais, além de infraestrutura como aeroporto e estações ferroviárias.

Durante a República Socialista Soviética, Agdam era um centro regional vibrante, com uma população que ultrapassava os 30 000 habitantes na própria cidade e cerca de quase 40 000 na totalidade do distrito em 2008. Era também um lar para clubes de futebol, instituições culturais e mercados movimentados.

A guerra de Nagorno-Karabakh e a queda de Agdam

O destino de Agdam mudou radicalmente no início dos anos 1990, no contexto da Guerra de Nagorno-Karabakh, um conflito prolongado entre Arménia e Azerbaijão que envolveu território, identidades étnicas e políticas. No verão de 1993, forças arménias e das autoproclamadas repúblicas separatistas lançaram uma ofensiva que culminou na captura de Agdam em 23 de julho de 1993.

Antes da ocupação, a maioria dos habitantes eram civis azeris. Com o avanço das tropas, toda a população foi forçada a fugir para o leste, deixando para trás casas, comércio e vida quotidiana. Agdam tornou-se parte de uma chamada zona tampão entre as forças arménias e as forças azeris, com acesso severamente restrito durante décadas.

Da cidade próspera a cidade fantasma

Após a ocupação, Agdam foi sistematicamente destruída e saqueada. Observadores e relatos internacionais descrevem uma destruição massiva de edifícios residenciais, escolas, hospitais, centros culturais, fábricas e infraestruturas, incluindo cemitérios e monumentos históricos.

Uma missão de fact‑finding da OSCE, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa em 2005 relatou que Agdam estava completamente em ruínas completas, com a exceção da mesquita central, a Aghdam Juma Mosque, construída entre 1868 e 1870 por Karbalayi Safikhan Karabakhi, um dos mais notáveis arquitectos da região. Embora tenha sobrevivido estruturalmente, a mesquita foi alvo de vandalismo e abandono durante anos, servindo em alguns momentos como abrigo para animais e sofrendo danos consideráveis no seu interior. Muitas estruturas foram desmanteladas para aproveitamento de materiais de construção, contribuindo para o desaparecimento total de bairros inteiros.

A magnitude da destruição foi tal que, em alguns relatórios e na imprensa internacional, Agdam chegou a ser apelidada de Hiroshima do Cáucaso, uma metáfora para o vazio e devastação que se seguiu ao conflito.

Outros monumentos históricos e culturais, como o Museu do Pão, escolas, teatros e cemitérios centenários não resistiram ao abandono e aos danos, muitos deles desaparecendo quase por completo.

O regresso de Agdam ao Azerbaijão

Após décadas de controlo por forças arménias e da autoproclamada República de Artsakh, Agdam voltou sob controlo do Azerbaijão em 20 de novembro de 2020, ao abrigo de um acordo de cessar‑fogo mediado internacionalmente que pôs fim à Segunda Guerra de Nagorno-Karabakh. Desde então, tem havido iniciativas de limpeza, remoção de minas e planos de reconstrução.

O governo azerbaijano apresentou projectos para transformar Agdam numa cidade moderna e habitável novamente, incluindo habitação, infra‑estruturas sociais e desenvolvimento sustentável. Parte do esforço inclui também a preservação de alguns vestígios históricos como lembrança da história passada.

Agdam deixará de ser uma cidade fantasma inacessível e embora a maior parte das suas ruas permaneça coberta de escombros e edifícios sem telhado ou janelas, o ambiente começa a mostrar sinais de nova vida, ainda que cautelosa e gradual.

Para muitos antigos habitantes e as suas famílias, a visita a Agdam é um acto de retorno emocional a um lar perdido há décadas. Agdam é um exemplo poderoso de como a guerra pode transformar um centro urbano próspero numa cidade fantasma. A sua história, desde as origens no século XVIII até ao presente, reflete décadas de conflito, perda e agora um lento processo de reconstrução.

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