Tenho resgatado a tradição de viajar no dia do meu aniversário. Mais do que uma forma de celebrar a data, é um ritual repleto de significado: uma maneira de a tornar memorável e inesquecível e, sobretudo, um caminho de descoberta do mundo e do outro que habita em mim.

Recordei esta necessidade de evasão e de partida no livro Sem nunca Chegar ao Cimo – Viagem aos Himalaias, de Paolo Cognetti, no qual o autor decide na celebração dos seus quarenta anos de vida, partir com alguns companheiros para a região de Dolpa, um planalto situado no Noroeste do Nepal:
Este pequeno Tibete em terra nepalesa, sobreviera devido a um qualquer esquecimento da História.» Acrescenta “Também nos mapas, Dolpa configura-se como uma anomalia: além, onde o Nepal político, que normalmente se mantém a sul da cordilheira himalaica, supera esta e penetra na imensa zona geográfica do planalto tibetano, há uma região inteiramente acima dos quatro mil metros de altitude, onde nem monções nem estradas chegam, a mais árida e remota e menos populosa região do país.
Ao mergulharmos neste livro, percebemos que é um convite ao leitor para explorar reinos secretos: o Tibete e o Nepal eram ilhas do tesouro.
A ocasião para celebrar o adeus da juventude, não era o único motivo para ir. Se viajarmos com amigos recentes ou de longa data, é uma boa forma de partilhar algo diferente: um lugar onde ambos fôssemos estrangeiros, o sentido da distância e da exploração. Viajar para os Himalaias exige uma organização detalhada: percorrer centenas de quilómetros ao longo de montanhas desabitadas é necessário planear uma verdadeira expedição, com guias, carregadores, mulas, um acampamento para montar todas as noites e desmontar todas manhãs e companheiros de viagens.
Quando amigos/as se juntam a uma viagem deste calibre percebemos que estamos num processo de construção perante feitos memoráveis e a viver uma cumplicidade única. Por isso, é crucial quem abraça connosco esta missão e compreende a unicidade e singularidade de cada um. O autor confessa:
Eu sabia que na montanha, mesmo quando caminhamos acompanhados, caminhamos sempre sozinhos, mas estava feliz por partilhar a minha solidão com estes companheiros.
Ao ler estas passagens, refleti sobre a importância de compreender e respeitar o ritmo e o espaço de cada um, bem como de manter abertura para acolher aqueles que, embora desconhecidos, escolhem embarcar na mesma viagem que nós, talvez guiados por propósitos diferentes dos nossos.
A escolha de um destino pode residir em vários motivos e pode ser inspirado por outras leituras. «O Leopardo-das-Neves», de Peter Matthiessen, publicado em 1978, inspirou a viagem de Paolo Cognetti, considerando que o autor “percorreria uma boa parte do trilho descrito nele. É interessante que durante todo o livro, Paolo vai lendo passagens aos seus companheiros de viagem, como uma forma de confirmação do itinerário e da existência do “último refúgio da cultura tibetana.
Tal como Peter Matthiessen, o escritor decide manter um diário de viagem bem como mapas desenhados à mão sobre os locais e sobre a natureza: desfiladeiros, lagos, rios e vegetação, inundam páginas em branco. Nunca nos perdemos no relato e vamos subindo em altitude, padecendo dos desafios do corpo perante as alturas. Mais do que o cume, o mais precioso é o caminho até ele, encontrando um sentido em cada passo.
Nesta vastidão de montanhas, de cordilheiras, deparam com um vale, onde se vislumbram pequenos riachos de água transparente, que formavam o estuário do rio; estes ramificavam-se como vasos capilares, sendo o lago o órgão por eles nutrido. Gosto especialmente da personificação do lago, dando força humana à natureza e a algo absolutamente sublime. É impossível Paolo não se perder na contemplação da água, especialmente na chegada ao lago Phoksundo, a quatro mil metros de altitude, que mais do que a pedra preciosa das lendas, era um obstáculo de água que a civilização não havia superado.
O livro convida-nos a uma breve reflexão sobre o conceito de peregrinação: é importante o verbo vaguear, ou seja, um caminhar em círculo, não há qualquer ponto de chegada. e a metáfora do alcance do cimo como uma chegada ao paraíso no sentido espiritual. Apesar da imponência das montanhas, ela coexiste em si mesma em todo o significado, trazendo simplicidade e conduzindo quem as contempla ao essencial. Perante tanta beleza, há uma procura interior, tornando-nos irrelevantes ao mesmo tempo que procuramos o nosso lugar no mundo.
Nesta viagem que Paolo Cognetti faz aos Himalaias, a residência das neves, como é apelidada, a dimensão e ritmo de passagem do tempo são diferentes e quando nos rendemos a isso é que entramos no verdadeiro espírito da viagem, porque como sustenta o autor caminhar era a nossa única missão quotidiana, a nossa medida do tempo e do espaço.
As citações lidas são originais do livro «Sem nunca Chegar ao Cimo — Viagem aos Himalaias», de Paolo Cognetti, das Publicações Dom Quixote, chancela da Leya.
Entre 20 de abril e 8 de maio, a Papa Léguas propõe a viagem “China: De Pequim aos Himalaias”; se partisse, levaria no bolso este livro, como bússola íntima para atravessar paisagens de assombro.
Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que nasce da parceria com a agência de viagens Papa Léguas, dedicada a acompanhar pequenos grupos e a fazer viajantes felizes.
No último sábado de cada mês, a literatura cruza-se com o território: textos que aproximam livros e lugares, escrita e paisagem. O episódio pode ser ouvido nas plataformas habituais, e o texto lido no blogue da Papa Léguas.
Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.









