Não aparece nos mapas como um país, não é reconhecido por nenhum governo e, oficialmente, continua a ser apenas um bairro. Ainda assim, Užupis tem Constituição, bandeira, hino, presidente e até uma moeda própria. É a “república” mais peculiar da Lituânia.
Situado junto ao rio Vilnelè, no coração de Vilnius,Užupis é hoje um dos bairros mais criativos e singulares da capital lituana. Mas a história desta pequena república começou de uma forma tão improvável quanto a própria ideia de lhe chamar país: com uma declaração de independência no Dia das Mentiras.
Como tudo começou
No início da década de 1990, Užupis era uma das zonas mais degradadas de Vilnius. O abandono durante o período soviético deixou marcas e o bairro ficou com pouca reputação. A transformação, contudo, começou de forma gradual. Atraídos pelos edifícios degradados e pelos espaços disponíveis, artistas e intelectuais começaram a instalar-se na zona.

Em 1996, um grupo de estudantes da Academia de Artes de Vilnius criou uma comunidade artística junto ao rio ‒ longe de imaginar que, um ano depois, chegaria a declaração de independência. Foi a 1 de abril de 1997 que os habitantes do bairro anunciaram a criação de uma república independente.
A iniciativa tinha uma forte componente de humor, mas servia também para afirmar a identidade de uma comunidade que estava a transformar o bairro. Esta nova “república” adotou os símbolos que normalmente associamos a um Estado: criou uma bandeira, um hino, uma moeda e um governo. Durante algum tempo, chegou mesmo a existir um pequeno exército, com 11 membros, que acabou por ser desativado.
O mais invulgar, contudo, é mesmo a sua Constituição.

A Constituição de Užupis
Escrita em 1998 pelos artistas Romas Lileikis e Tomas Čepaitis, a Constituição tem 41 artigos e está exposta numa parede da rua Paupio. Ao contrário das Constituições tradicionais, não se preocupa apenas com leis, deveres ou instituições.
Aqui, encontram-se direitos como o de ser feliz, ser infeliz, amar, não amar, ter medo ou não ter medo. Há ainda um artigo que estabelece que todos têm direito a ser únicos e outro que determina, simplesmente, que um cão tem direito a ser cão.
A Constituição já foi traduzida para mais de 50 línguas e tornou-se uma das principais atrações do bairro. Mais do que estabelecer as regras de um Estado, o documento explica aquilo que Užupis pretende representar: uma comunidade onde a criatividade, a liberdade e a tolerância ocupam um lugar central.
A fronteira
Além da Constituição, a República de Užupis tem também uma fronteira. A principal entrada no bairro faz-se através da Ponte de Užupis, construída em 1901. A ponte tornou-se uma espécie de porta simbólica para esta pequena república e, quando a percorrem, os visitantes podem obter um carimbo simbólico no passaporte.

Apesar de todas as referências a uma república, a verdade é que o bairro nunca procurou realmente transformar-se num Estado soberano. O facto de a declaração da independência ter acontecido no Dia das Mentiras reforça que o projeto tinha uma dimensão lúdica. Foi sobretudo uma forma de criar uma identidade coletiva e celebrar a liberdade de uma comunidade artística.
O bairro que no início dos anos 90 era visto como problemático tornou-se, ao longo das décadas, uma das zonas mais conhecidas de Vilnius pela sua atividade artística. Hoje, esculturas e instalações de arte fazem parte da paisagem urbana e podem ser encontradas nas ruas e junto ao rio.








