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Entre estações

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Uma das questões em que tenho pensado, a partir do ensaio do filósofo francês Michel Onfray (1959) Teoria da Viagem – Uma Poética da Geografia é: Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, é claro, a leitura, tudo isso define o projeto, mas a viagem em si, quando a podemos dar por iniciada?

Talvez a resposta esteja precisamente quando deixamos um lugar sem termos ainda chegado ao outro. É nesse intervalo, nessa espécie de suspensão entre a partida e a chegada, que a viagem parece adquirir uma dimensão própria.

Michel Onfray dedica um capítulo a algo que designa como Viver num espaço intermédio: O primeiro passo instala de facto num espaço intermédio que remete para uma lógica peculiar: já não estamos no lugar abandonado e ainda não estamos no lugar desejado. Flutuando, ainda levemente ligado a dois marcos, num estado de leveza espacial e temporal, cultural e social, o viajante entra no espaço intermédio como se acostasse a uma ilha singular.

E se esse processo flutuante constituísse a própria viagem?

É precisamente essa ideia que me ocorre perante Expresso do Oriente: de Viena a Istambul, uma viagem organizada pela Papa-Léguas que recupera uma das rotas mais lendárias do mítico Expresso do Oriente. Agendada para o final de setembro, curiosamente muito próximo do mês em que foi inaugurado, em outubro de 1883, o Expresso do Oriente, que deu início a um serviço internacional de comboios de luxo que viria a transformar para sempre o imaginário europeu da viagem.

Há uma espécie de poesia que permanece nestes lugares de passagem. Lugares que não parecem pertencer inteiramente a nenhuma geografia e que, por instantes, também parecem escapar ao tempo. Como refere Onfray, são espaços que não parecem dominados por nenhuma língua, nem por nenhum tempo.

Talvez, por isso exista uma relação tão profunda entre a viagem e a criação artística.

O poeta T. S. Elliot (1888-1965) sugeria que o poeta Charles Baudelaire (1821-1867) foi o primeiro artista do século XIX que soube dar expressão à beleza dos lugares de passagem e dos meios de transporte.

Não é, por isso, de estranhar que, quando o pintor americano Edward Hopper (1882-1967), conhecido pelas suas pinturas realistas, descobriu a poesia de Baudelaire, tenha sentido uma atração imediata. No livro A arte de viajar, Alain de Botton explica essa afinidade entre os dois artistas: “Hopper tinha em comum com Baudelaire o mesmo interesse pela solidão, pela vida na cidade, pela existência moderna, pelo refúgio consolador da noite e pelos lugares de passagem.”

Hopper pintou precisamente alguns desses lugares aparentemente secundários, muitas vezes ignorados ou desprezados: estações, quartos de hotel, estradas, restaurantes, carruagens, paisagens vistas através de uma janela. Espaços onde quase nada parece acontecer e onde, justamente por isso, tudo parece poder acontecer. Entre as suas pinturas encontram-se várias paisagens associadas às vistas de comboio e cenas a bordo de comboios e outros veículos.

Vaguear o olhar entre a carruagem e aquilo que se vê pela janela proporciona conversas interiores e multiplica os fluxos de consciência. Alain de Botton reforça esta ideia afirmando que Hopper sentia-se atraído pela atmosfera interior das carruagens semivazias que atravessam a paisagem: o silêncio que reina dentro do comboio enquanto lá fora as rodas batem o seu ritmo nos carris, o devaneio alimentado pelos sons e pelo panorama que se descobre das janelas, um devaneio que parece fazer-nos sair do nosso próprio ser habitual, para acedermos a pensamentos e recordações que não logram vir à tona noutras circunstâncias menos instáveis.

Compartment C, Car 293 de Edward Hopper

Esta grande travessia: do Coração Imperial ao Portão do Oriente é também uma viagem através do tempo. Recuperar uma das rotas associadas ao Expresso do Oriente é revisitar um imaginário que se construiu em torno do comboio enquanto símbolo de aventura, descoberta, sofisticação e encontro entre mundos.

E há ainda uma coincidência literária particularmente sugestiva. Esta viagem coincide com o ano em que se assinalam 50 anos da morte de Agatha Christie, autora britânica de policiais intemporais e criadora de personagens singulares. A escritora foi uma das mulheres que viajaram naquele comboio rumo ao Médio Oriente, experiência que contribuiria para a criação de um dos clássicos policiais, Crime no Expresso do Oriente.

Michel Onfray fala-nos desse espaço intermédio uma geografia em que o caminho se transforma em narrativa.  

A Papa Léguas propõe a seguinte viagem: Expresso do Oriente: de Viena a Istambul de 26 de setembro a 6 de outubro.

Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que ganha energia numa parceria com a agência de viagens Papa Léguas — especialista em guiar pequenos grupos a destinos “fora da caixa”, com o propósito de “fazer viajantes felizes”. No último sábado de cada mês, a literatura encontra o caminho: textos que cruzam livros e lugares, palavras e paisagens. Pode ouvir o episódio e ler o texto no blogue da Papa Léguas. Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.

As citações lidas são originais dos livros «A arte de viajar», de Alain de Botton, da Dom Quixote e de «Teoria da Viagem – Uma Poética da Geografia», de Michel Onfray. Outras sugestões de livros: «Autobiografia», de Agatha Christie e o clássico «Crime no Expresso do Oriente» da sua autoria.  

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