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Relato de um reconhecimento.

Corria o “ano da graça” de 2020, entre confinamentos e desconfinamentos, baloiçando em dúvidas e expectativas de destinos, decidi regressar aos Açores, desta vez, rumando à ilha de Santa Maria.

Bem sei que em tempos “ditos normais” não seria a minha primeira escolha até porque a Ilha de Santa Maria, passa um pouco despercebida entre outras do arquipélago. Mas mesmo assim, decidi avançar, até porque a estratégia anti-covid do Governo Regional dos Açores foi francamente sensata e eficiente: testes gratuitos, controlo responsável e ”last but not least”, a ilha é francamente despovoada. Mas a verdadeira motivação era percorrer a pé locais naturais de grande beleza paisagística que caracterizam esta ilha.

Adianto-vos já que não me arrependi, pois decidi fazer a travessia a pé da ilha em 5 dias, e foi uma aventura que ultrapassou todas as expectativas iniciais de uma escolha secundária face à pandemia.

São cerca de 80 quilómetros a percorrer, por vezes, com algum desnível para completarmos a volta da ilha.

Com pernoitas pelo meio, faz-se em quatro etapas numa média de 20 quilómetros por dia, mas com tempo para paragens, para almoçar, dar um mergulho de mar, contemplar as vistas e interagir com a população.  

Com efeito, a ilha é surpreendente. A sua vila, chamada de Porto, acantona-se em falésias e linhas de água que desde tempos antigos a defendeu de piratas e corsários, é o ponto de partida para a “Volta a pé da ilha” cujo trajecto se faz em “sentido contrário aos ponteiros do relógio”, incindindo os primeiros dias de marcha na Costa Sul, que nos traz mergulhos em águas temperadas, monumentos geológicos, falésias imponentes, aldeias de encantar e vistas infinitas.

Farol de Gonçalo Velho, em Santa Maria, Açores
Farol Gonçalo Velho

Contornando a ponta sudeste, encontramos o maravilhoso farol de Gonçalo Velho (talvez um dos mais bonitos da costa portuguesa) e as vinhas velhas, encaixadas em muros de pedra nas falésias.

Entre fajãs e fiadas de pedra que caem para o mar, chegamos à Baía de S. Lourenço, uma pérola natural, situada na costa Este, e rumamos através de um verde omnipresente até à Costa Norte, também ela imponente, pelas suas paisagens, arribas e alcantilados sobre o mar.      

Há que fazer um desvio do litoral para ascender ao ponto mais alto da ilha, o chamado Pico Alto, que se situa no interior da ilha, para atravessarmos a sua magnífica floresta Laurissilva, novamente em direção ao mar, à lindíssima Baía do Raposo.

A caminhada segue paralela à costa Norte através de manchas florestais, Barreiros de cores laranjas até à segunda povoação da ilha, dita dos Anjos e local de desembarque do navegador Colombo e onde se apraz dizê-lo, se come uns chocos divinais.

A partir dos Anjos, seguimos um trilho paralelo ao mar que culmina na ponta Noroeste, onde as vistas para a Ilha de S. Miguel, se esfumam no horizonte.

É neste ponto que iniciamos a travessia da costa Oeste, talvez a menos interessante, devido à proximidade do aeroporto mas que nos brinda, no final, com vistas soberbas para o ilhéu do Vau. A partir daqui, entre voos de aves marinhas e um tapete florido, chegamos, vindos de Oeste à Vila do Porto, onde termina a travessia.

Posso dizer, que ao percorrermos a pé uma região, nada permanece indiferente aos nossos sentidos: os aromas, as cores, as texturas e os sons acompanhar-nos-ão numa memória vitalícia. E sobretudo, andar a pé, permite-nos uma atenção aos pormenores, às pequenas subtilezas da natureza que permanecerão no nosso espírito por muito tempo.

Mas estas sensações de bem-estar e de comunhão com uma região, com as suas gentes e natureza, não são novidade para nós, que gostamos de andar a pé. Mas que sempre vale a pena lembrar, sobretudo aos mais distraídos da beleza de uma caminhada.

E foi essa a motivação que me fez propor a organização desta viagem à Papa-Léguas. Com algumas diferenças, nomeadamente no alojamento, pois ficamos no simpático Hotel de Santa Maria, regressando todos os dias ao ponto de chegada do dia anterior para fazermos a totalidade da grande rota (GR) de Santa Maria. A estadia em hotel permite-nos um melhor descanso e sobretudo aproveitar para jantar nos melhores restaurantes da ilha.

E assim, desde o meu reconhecimento da ilha em 2020, já guiei 4 edições com maravilhosos grupos, estando sempre pronto a regressar à Ilha do sol.    

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About the author

Nasci em África e cedo comecei a calcorrear os trilhos de Portugal. Sou um apaixonado pelo ar livre, pela Natureza, história e etnografia do nosso país, e ao longo dos anos tive oportunidade de percorrer os mais belos percursos pedestres de Norte a Sul do país. Formei-me em história e sou um naturalista autodidacta e enquanto guia de passeios pedestres, gosto de partilhar com os grupos todo este conhecimento além de informação sobre geologia, fauna, flora, lendas e curiosidades do mundo animal.

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