Muitos antes de existirem arranha-céus, aviões ou até algumas das civilizações mais conhecidas da História, a Etiópia era já palco de algumas das primeiras páginas da aventura humana. Considerado por muitos o berço da humanidade, este país africano guarda tesouros que atravessam milhares de anos, desde fósseis ancestrais a monumentos religiosos que parecem desafiar as leis da natureza.
Entre montanhas escarpadas, vales profundos e paisagens imponentes, a Etiópia esconde um dos locais de culto mais extraordinários do planeta. Escavada numa parede rochosa a mais de 2.500 metros de altitude, no norte da Etiópia, a igreja de Abuna Yemata Guh é frequentemente descrita como uma das mais inacessíveis do mundo.
Uma subida para os mais corajosos
Localizada na região de Tigray, este local de culto continua a atrair peregrinos e aventureiros dispostos a enfrentar uma subida desafiante para chegar a um dos templos cristãos mais impressionantes do planeta. Para lá chegar é preciso fazer subidas íngremes, atravessar pontes instáveis e percorrer caminhos estreitos à beira de precipícios ‒ mas não é só. Por ser um solo sagrado, a subida deve ser feita sem qualquer tipo de calçado.

Diz a tradição local que a igreja foi fundada no século VI por Abuna Yemata, um dos chamados Nove Santos que ajudaram a difundir o Cristianismo na Etiópia. O local foi escolhido não apenas pela sua imponência, mas também pela proteção natural que oferecia contra invasões e conflitos.
Se o exterior impressiona pela ousadia da sua localização, o interior surpreende pela riqueza artística. As paredes e os tetos da igreja estão cobertos por frescos coloridos que retratam figuras bíblicas, santos, apóstolos e episódios importantes da tradição cristã etíope. Muitas destas pinturas foram realizadas há centenas de anos e conservam ainda hoje cores vibrantes e detalhes notáveis.
Especialistas consideram estes frescos alguns dos exemplos mais importantes da arte religiosa medieval da Etiópia. O isolamento do local ajudou a protegê-los da ação do tempo, de conflitos e da intervenção humana excessiva.

Um lugar de fé e devoção
O que mais surpreende os visitantes não é apenas a dificuldade do percurso, mas a naturalidade com que muitos dos habitantes locais o realizam. Para muitos fiéis da região, a subida até à igreja faz parte da experiência espiritual.
Em 2018, o padre Haylesilassie Kahsay contou à “BBC” que fazia o percurso todos os dias. Passava os dias na montanha, a estudar livros antigos, uma vez que “não há lugar mais silencioso” que aquele e também não há “ninguém com quem conversar. “Aproveito para falar com Deus e partilhar os meus segredos com Ele”, disse.
Segundo a tradição cristã local, quem for capaz de escalar os penhascos será protegido pelos Nove Santos, o pioneiro grupo de missionários que, a partir do século V, promoveu o crescimento do cristianismo na Etiópia.








