Em 1982, o Kuwait estreou-se pela primeira (e única) vez no Campeonato do Mundo de Futebol, realizado em Espanha. O acontecimento foi tão marcante que o país mobilizou uma enorme comitiva de adeptos, que atravessou milhares de quilómetros para acompanhar e torcer pela equipa.
Para acompanhar a equipa, foram organizados oito voos em aviões jumbo com adeptos kuwaitianos. Em Valladolid, onde o Kuwait disputou os seus jogos, cerca de 3000 apoiantes marcaram presença no Estádio José Zorrilla.
Muitos vestiam roupas tradicionais e levaram bandeiras, criando uma atmosfera que contrastava fortemente com a imagem que muitos espanhóis tinham, à época, de um pequeno país do Golfo. A comitiva tinha, contudo, um convidado especial.
O participante especial
Além dos adeptos, também um camelo viajou até Espanha como mascote da seleção ‒ mas há um motivo por trás.
A história remontava às eliminatórias. Depois de uma vitória do Kuwait sobre a Nova Zelândia, alguns adeptos neozelandeses terão provocado os kuwaitianos, chamando-lhes “camel herders”, numa referência à imagem tradicional dos habitantes da Península Arrábida como pastores de camelos.
A resposta foi transformar a provocação num símbolo de orgulho. Em vez de esconder o estereótipo, levaram um camelo para o Mundial. O animal tornou-se uma das figuras mais curiosas da edição: estava vestido com as cores azul e branca da seleção, apareceu junto dos adeptos e recebeu o slogan “Our Camel Is a Winner”.
Segundo relatos publicados pelo Kuwait Times, o camelo já tinha uma ligação ao cinema, tendo participado no filme “The Message”. Depois do Mundial, o animal foi oferecido ao zoo de Madrid, onde passou a ser conhecido pelo nome Kuwait.
O príncipe que anulou um golo
A participação do Kuwait no Mundial não ficou marcada apenas pela presença de um camelo. Na fase de grupos, o jogo contra a França acabou por entrar para a história por outros motivos. Quando Alan Giresse marcou o quarto golo para a seleção francesa, os jogadores kuwaitiano pararam depois de ouvirem um apito vindo das bancadas.
O que aconteceu foi que o príncipe kuwaitiano Fahd Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah invadiu o relvado para protestar contra o golo e conseguiu convencer o árbitro a anulá-lo. A França, contudo, acabou por vencer o jogo por 4-1.
O Kuwait não voltou a disputar um Campeonato do Mundo desde 1982, mas a sua única presença na competição deixou uma história que ultrapassa o futebol. A escolha do animal ganha ainda mais significado quando se conhece a história do próprio Kuwait.
Durante grande parte do século XX, antes da riqueza do petróleo transformar o país, os camelos faziam parte do quotidiano das comunidades da região, enquanto o mar e a pesca de pérolas sustentavam a economia local. Em poucas décadas, porém, o Kuwait passou de uma sociedade tradicional e marítima para um dos países mais ricos do mundo graças às suas reservas de petróleo.








