Muitas vezes olhamos para as estradas apenas como meios para atingir um fim, servindo para nos levar de um ponto A a um ponto B. No entanto, algumas rotas transcendem a sua função utilitária para se tornarem, elas próprias, o destino.
Seja pela audácia da engenharia que as sustenta ou pelas paisagens dramáticas que revelam a cada curva, estradas como a Karakoram Highway (KKH), no Paquistão, transformam a viagem numa experiência contemplativa e cultural.
Carinhosamente apelidado pelos paquistaneses como a “Estrada da Amizade”, a KKH é muito mais do que uma simples via de transporte. Inaugurada oficialmente em 1978, após quase 20 anos de construção, esta estrada serpenteia por algumas das cordilheiras mais altas e desafiadoras do planeta, uma paisagem tão única que lhe valeu o título informal de “oitava maravilha do mundo”.
Com 1.300 quilómetros de extensão, liga a pequena cidade de Hasan Abdal, perto de Islamabad, no Paquistão, a Kashgar, na China, passando ainda por Khunjerab, a passagem de fronteira pavimentada mais alta do mundo.
A KKH segue um dos antigos traçados da Rota da Seda, o conjunto de caminhos que permitiram as trocas comerciais entre o Ocidente e o Oriente durante vários séculos. Esculpida diretamente nas encostas de granito e atravessando vales profundos onde o rio Indo corre com uma força avassaladora, a sua construção envolveu mais de 25 mil trabalhadores.

A estrada começou a ser construída em 1959 e, durante os cerca de 20 anos que duraram as obras, muitos foram os trabalhadores que morreram devido a deslizamentos de terra, quedas em abismos e condições climáticas extremas durante as explosões de dinamite nas rochas. Diz-se que “uma vida foi perdida para cada quilómetro construído”, uma vez que cerca de 810 paquistaneses e 200 chineses perderam a vida na construção da estrada.
Foi um preço alto a pagar para dar a conhecer estas regiões, que estavam praticamente isoladas do resto do mundo. Com a inauguração da mítica KKH, estas áreas remotas abriram-se assim ao turismo.
O Vale do Hunza
A jornada pela estrada é uma experiência visual que muda drasticamente a cada quilómetro. Um dos maiores destaques é o troço de 194 quilómetros que atravessa o Vale do Hunza, muitas vezes descrito como o segredo mais bem guardado da Ásia. O seu ponto mais alto situa-se a 2.438 metros de altura e está rodeado por vários picos acima dos 7.000 metros.
Os seus habitantes, os povos Burusho e Wakhi, são predominantemente muçulmanos ismaelitas e a sua longevidade é mítica, que se diz resultar do seu estilo de vida e alimentação saudáveis. Muitos acreditam que o Vale do Hunza serviu de inspiração para o mítico vale de Shangri-La, descrito no romance “Horizonte Perdido” de James Hilton ‒ um lugar de paz eterna, sabedoria e juventude.
O Lago Attabad e o Património Arqueológico de Chilas
Outro dos mais recentes destaques desta rota é o lago Attabad, um lago de águas azul-turquesa cristalinas que se formou após um deslizamento de terra maciço em 2010 e forçou os viajantes a atravessar parte da rota em barcos até à construção de novos túneis. Hoje é procurado pelas suas atividades recreativas como jet-ski, passeios de barco ou pesca.
Ao longo do caminho, as rochas de Chilas e Hunza exibem mais de 50 mil petróglifos que servem como um “livro de visitas” milenar, onde mercadores, monges budistas e soldados de várias eras deixaram as suas marcas.


Passagem de Khunjerab
A jornada termina na passagem de Khunjerab, onde a estrada atinge os 4.693 metros de altitude, consolidando a KKH como a estrada pavimentada internacional mais alta do mundo. Atravessar esta rodovia é, por isso, muito mais do que um percurso turístico: é uma experiência contemplativa que coloca o viajante perante a imensidão do Paquistão.
Hoje, além de ser um pilar estratégico para o comércio na Ásia Central, a estrada permanece como um testemunho vivo da resiliência humana.
Se quiseres conhecer de perto a oitava maravilha do mundo, vem com a Lisa Vaz e a Papa-Léguas explorar o Paquistão.










