Com um livro de uma editora já inexistente em Portugal, a Livros Cotovia, que publicou obras como a Série Oriental Viagens, parti para o Japão com uma pérola: «Livro Usado», do autor, Jacinto Lucas Pires.

O livro é um convite a uma viagem pelo arquipélago, onde se evidenciam contrastes entre diferentes cidades: apesar da multidão que invade as ruas, das luzes e dos néons, tudo isso convive com a beleza das montanhas e com o silêncio harmonioso junto aos templos zen.
O escritor inicia a sua viagem em Tóquio sobre a qual refere que “é uma cidade sobre a velocidade”. Destaca “os prédios altos e néon e ecrãs e milhares de pessoas passando em todos os sentidos. Em frente, no cruzamento, o sinal fica verde para os peões e a multidão, agora parada no passeio à espera, lança-se para a estrada toda ao mesmo tempo e atravessa (vozes, rostos, corpos, cores). Sobre ela, pessoas magras que dão a impressão de verticalidade, um silêncio incrível, de agitação, de coisa funda.
Num dos distritos mais movimentados de Tóquio, Shinjuku, a agitação não impede a atenção aos detalhes, como o instante em que se observa um “bando de pássaros brancos (um silêncio alto): uma mulher levanta os olhos e repara no voo, depois um homem também, depois mais pessoas, e por um instante parece inevitável que a multidão toda pare calada a olhar aquilo, pássaros na cidade (…)”.
Também há tempo para visitar Ginza, bairro conhecido pelas lojas e restaurantes luxuosos, pela sofisticação e arquitetura elegante, sempre com um toque japonês.
Abraça-se Quioto, uma cidade que pede introspeção e gosto muito desta imagem, transmite leveza e plenitude.
“Chegar ao conjunto de templos de Nanzen-ji assim pela montanha, pelas traseiras, torna tudo, cada pormenor, um pouco mais secreto – um pinheiro breve inclinado sobre o carreiro; no ar, pestanejando, uma borboleta.”
Jacinto Lucas Pires
Nanzen-ji é um dos mais importantes complexos de templos zen do Japão, situado na base das montanhas Higashiyama, em Quioto, onde espiritualidade e arquitetura se fundem numa harmonia discreta. Aqui o silêncio impõe-se naturalmente, numa paisagem equilibrada e serena.
“O silêncio – essa “múltipla actividade que não cessa de nos rodear”, nas palavras de John Cage – unindo tudo. Entramos pelos portões, descalçamo-nos à entrada, percorremos corredores e salas, sentamo-nos cá fora a olhar os jardins de pedra debaixo do céu, e o que fica é apenas isso, uma ideia de silêncio; como uma suavidade do ar em redor da cabeça e das mãos; uma vontade em branco.” A atitude contemplativa conduz a uma serenidade que se instala sem se impor.
A uma hora de caminho de Quioto, o Castelo de Himeji merece visita. Classificado como Património Mundial da UNESCO, data do século XVI, e é um dos castelos japoneses mais bem preservados e que não foi destruído por incêndios. Sim, “os castelos japoneses são de madeira e não de pedra.”
Viajar para Hiroxima é penoso e exige respeito. A 6 de agosto de 1945, foi lançada uma bomba atómica e não é de estranhar que por esse motivo: “Os rostos, as ruas, as casas, tudo se olha de uma outra forma, não se consegue olhar senão de uma outra forma – mais perdida e menos livre, dolorosa, distanciada.”
Não se esquece a passagem dos portugueses no Japão. Comecemos pela doçaria, onde na confeitaria Fukusaya situada em Nagasáqui, se vende o famoso “castella”, receita original dos portugueses antigos – “uma espécie de filho-antepassado do pão-de-ló português; um pão-de-ló ligeiramente mais doce e com uma massa mais fina e mais densa, em tiras cortadas com toda a delicadeza, sem uma falha, a direito.”
Depois recorda-se a introdução da espingarda no século XVI no Japão por parte dos portugueses, quando no alto do Monte Bizan (na cidade de Tokushima, na ilha de Shikoku), alguns locais se apercebem que o autor, Jacinto Lucas Pires é português.
Há minúcia e graciosidade em tudo o que nos circunda: “No Japão, esteja-se onde se estiver, há sempre uma montanha. (Mas aqui até as montanhas são contidas e finas, quase delicadas.)
É impossível visitar o Japão sem estarmos acompanhados de um livro de haikus (pequeno poema japonês tradicional, conhecido pela sua simplicidade e ligação à natureza, onde se capta o instante), especialmente por Matsuo Bashô, considerado o poeta nacional japonês:
“nesta primavera
de novo em viagem –
que excitante!”
Neste livro, está muito presente a observação do autor não só do ambiente que o circunda, mas sobretudo a atenção às pessoas às suas expressões.
No fim, o Japão não é apenas um destino, mas um espaço de contrastes onde tudo coexistе: a velocidade e o silêncio, o urbano e o natural, o efémero e o eterno. Mais do que uma viagem, o livro torna-se um exercício de atenção ao mundo e de descoberta da beleza no detalhe.
A Papa Léguas propõe duas viagens: Um verão no Japão e À descoberta do Japão. Se partisse, levaria um caderno para registar impressões e o meu olhar sobre o mundo, na esperança de que, entre caminhos e silêncios, pudesse nascer poesia.
Letras em Viagem é uma rubrica do podcast Vit’a Ler, que nasce da parceria com a agência de viagens Papa Léguas, dedicada a acompanhar pequenos grupos e a fazer viajantes felizes.
No último sábado de cada mês, a literatura cruza-se com o território: textos que aproximam livros e lugares, escrita e paisagem. O episódio pode ser ouvido nas plataformas habituais, e o texto lido no blogue da Papa Léguas.
Aqui, os livros leem-se com os pés no mundo e os olhos atentos.







